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Silencioso com o visitante: ver, seguir adiante, talvez reter uma imagem. “Hoje tem Espetáculo: o Universo Poético de Assis Marinho”, em cartaz na Pinacoteca Potiguar, parece querer mais. Quer tempo, escuta e, sobretudo, disposição para entrar — como quem atravessa a lona de um circo — em um território onde memória e imaginação se confundem. Neste sábado 21, a mostra ganha um novo desdobramento, menos como evento paralelo e mais como aprofundamento natural dessa experiência.
A programação especial propõe uma visita mediada conduzida pelo professor Henrique Lucena, historiador que opera na fronteira entre o rigor acadêmico e a sensibilidade narrativa. Ao longo do percurso, ele não apenas contextualiza a obra de Assis Marinho, mas a reposiciona no fluxo mais amplo da cultura potiguar, destacando como seus personagens — retirantes, sertanejos, pescadores, figuras do sagrado — funcionam menos como retratos e mais como permanências. São imagens que resistem ao tempo, ainda que nasçam de um contexto muito específico.
Assis, autodidata, construiu uma trajetória à margem de escolas formais, o que talvez explique a liberdade de seu traço e a singularidade de sua linguagem. O crítico Dorian Gray o descreveu como dono de uma “biotipologia fantástica”, uma expressão que sugere não apenas variedade de tipos humanos, mas uma capacidade de reinventá-los. Em suas telas, há algo de documento e de invenção — como se cada figura carregasse uma história reconhecível e, ao mesmo tempo, um desvio poético que a desloca para outro plano.
Essa ambiguidade — entre o concreto e o simbólico — é o eixo sobre o qual a exposição se organiza. O curador Manoel Onofre Neto parte de um encontro aparentemente casual: a pintura de um palhaço com acordeon, acompanhada da frase “Eu venho pensando que este é meu autorretrato”. A partir daí, o circo deixa de ser apenas um motivo recorrente e passa a operar como chave de leitura. “Assis não apenas pinta o circo; ele habita esse picadeiro existencial”, afirma Onofre. A ideia de espetáculo, nesse sentido, não é ornamento — é estrutura.
O percurso curatorial se desdobra como uma narrativa em atos, quase teatral. Começa com o “Quixote Sertanejo”, espécie de espelho do artista em sua obstinação, recua às origens no Seridó, atravessa o sertão e suas tensões, passa por um sagrado humanizado e alcança o litoral de Natal, onde a paisagem se abre, mas não necessariamente se resolve. Cada etapa sugere deslocamento, mas também continuidade — como se os temas retornassem sob novas formas.
Há, ainda, um gesto final que sintetiza essa proposta: um grande espelho inserido na expografia. Mais do que recurso cenográfico, ele funciona como dispositivo conceitual. Ao se ver refletido entre as obras, o visitante é convocado a reconhecer que as dores e delícias ali representadas não pertencem apenas ao artista. “Quero que o público compreenda que as dores e delícias de Assis são também as nossas”, diz o curador. “Que sintam que a vida é um espetáculo coletivo e que a cortina jamais se fecha para quem faz da alma o seu palco.”
Se a mostra revisita a trajetória, ela também se detém no presente. As obras mais recentes indicam um deslocamento importante: menos detalhe, mais gesto; menos cor, mais tensão. Assis tem explorado nanquins aquarelados e aguadas em acrílica em uma busca que parece orientada pela síntese. “Nas novas produções, Assis alcança uma simplificação sofisticada”, observa Onofre.
“O trabalho tornou-se mais gestual, buscando a essência da tristeza e da complexidade humana com menos traços e cores, mas com a sensibilidade visceral de sempre.” Há, nesse movimento, algo que aproxima sua produção de tradições expressionistas, em que o traço não descreve — revela.
É nesse contexto que a visita mediada ganha relevância. Não como explicação, mas como expansão. Ao oferecer camadas adicionais de leitura — históricas, culturais, simbólicas —, ela permite que o espectador permaneça mais tempo em cada obra, perceba relações menos evidentes, reconheça continuidades. Ao final do percurso, a roda de conversa com o curador desloca a experiência para outro registro: o da troca direta, em que o processo curatorial — escolhas, dúvidas, intuições — se torna visível.
Com vagas limitadas a 30 participantes, a atividade mantém um caráter quase íntimo, coerente com a própria natureza da exposição. A inscrição prévia, feita via redes sociais, funciona como filtro, mas também como convite a um público disposto a ir além do olhar rápido.
Em cartaz até 29 de março, “Hoje tem Espetáculo” reafirma a potência de uma obra que, embora profundamente enraizada no Rio Grande do Norte, dialoga com questões mais amplas — identidade, deslocamento, pertencimento. A programação deste sábado não altera esse percurso; apenas o aprofunda. Como se, por algumas horas, o espectador deixasse de ser apenas público e passasse a integrar, ainda que provisoriamente, o próprio espetáculo.
Fonte: Agora RN