Após ataques da PM, povos Guarani-Kaiowá temem novas incursões no MS

Foto: Agência Brasil

Após serem alvos de ações da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul (MS), que deixaram dezenas de feridos e resultaram na morte de um jovem na última semana, os indígenas Guarani e Kaiowá vivem sob a tensão de uma nova incursão dos militares, comandados pelo governador Eduardo Riedel (PP). A comunidade, que há muitos anos luta pela demarcação de suas terras, vem resistindo à pulverização de agrotóxicos que contaminam suas plantações.

Na ação da Tropa de Choque, que ocorreu na última sexta-feira (17), 11 pessoas ficaram feridas na comunidade Guyraroká, em Caarapó. Entre elas está Valdelice Veron, uma das principais lideranças indígenas do estado, reconhecida nacionalmente. De acordo com relatos da comunidade, os policiais usaram balas de borracha durante a operação. Valdelice foi atingida no abdômen e no peito.

A violência ocorreu durante mais uma retomada: processo pelo qual os povos originários buscam recuperar territórios tomados por não indígenas. A tensão começou na quinta-feira (17), quando os indígenas bloquearam uma estrada vicinal para impedir a passagem de maquinários agrícolas que seriam usados na pulverização de agrotóxicos nas terras.

Júnior Concianza Severino, 24 anos, reconhecido como Pessoa com Deficiência Psicossocial (PCD), foi morto pela PM, na última quinta-feira (16), na aldeia Panambizinho, em Dourados (MS). A família do jovem contesta a versão divulgada pela PM, segundo a qual Júnior estaria “em surto” ou teria tentado tomar a arma dos policiais.

Após as ações, agentes da Tropa de Choque da PM continuam na região, gerando temor de novos ataques.

“Existe esse temor, inclusive de ataques noturnos, que seriam ilegais. Ontem (segunda-feira, 20), os indígenas ligaram o tempo inteiro, dizendo que a Tropa de Choque estava se deslocando à noite. Como tudo isso é feito à margem da lei — sem mandado, flagrante e justificativa — pode acontecer a qualquer momento, por qualquer motivo”, relata Matias Benno Rempel, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) de Mato Grosso do Sul.

“Há um destacamento permanente da Tropa de Choque, circulando entre Guyraoka e Passo Piraju. Estão prontos para atacar qualquer movimentação dos indígenas. Os Guarani estão sendo coagidos no direito de resistência, impedidos até de reconstruir casas. Qualquer tentativa de montar barracos é respondida com ataque. Então, o cerco continua”, completa.

A comunidade Guyraroká reivindica o território da Fazenda Ipuitã, retomado em setembro de 2025. O local é alvo de disputa desde 1999. Embora a União tenha reconhecido a área como Terra Indígena em 2009, o ato foi revogado em 2016, e o processo segue em tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF).

Atualmente, cerca de 200 indígenas vivem em uma área de 50 hectares, enquanto relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) reconhece o território original com 11 mil hectares.

Fonte: ICL News

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